Esse texto não foi escrito nem hoje, nem ontem, nem semana passada, mas ainda é quase tão atual quanto.
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Já estou há algumas horas maquinando como escrever esse texto, e sempre o começo, o meio e o fim são diferentes, mas sei bem que no fundo eu só quero explicar a afirmação “Eu não sei amar”.
Um dos começos para esse texto é o de que estou passando mal – Eu realmente estou passando mal –. Não me alimento bem durante as férias, e os complementos de vitamina C e de todas as do complexo B não parecem ser suficientes, nem mesmo em conjunto com o zinco. Nem em conjunto com o achocolatado que encontro na geladeira. Mas esse é só um dos começos.
Pra falar a verdade, vou tentar escrever outro começo, começando logo no próximo parágrafo.
Aqui está, um novo começo.
Meu coração está batendo forte, eu estou nervoso, estou com vontade de chorar. Ontem briguei com minha namorada e percebi mais uma vez que não sei lidar com as pessoas com quem convivo, para as quais digo (ou simplesmente já disse) “Eu te amo”. Eu grito, não com elas, mas para elas ouvirem meus gritos. Eu as machuco, não para que sintam dor física, mas para que depois eu tenha um pouco desse sabor amargo de suco gástrico na boca e que parece significar “Venci esta batalha, agora só tenho de esperar pela próxima.”. Eu choro pelo medo de perdê-las, mas não sei o que fazer até o dia em que este momento irá inevitavelmente chegar. Resumindo, eu não sei amar.
Estou aqui tentando escrever e a todos os momentos a palavra “medo” me vem à mente. Mas, de que eu tenho medo? Bom, é uma lista grande. Eu tenho medo de ser como meus pais, tenho medo de um dia gritar com meus filhos e dizer que eu preferia ter outra vida, que nunca deveria ter tido-os, que não deveria ter me casado. Tenho medo de que um dia meu filho descubra que eu traí sua mãe, e que isso é uma coisa normal. Eu tenho medo de ser normal.
Caros, sei que já faz um bom tempo que não posto no blog, portanto peço desculpas por isso. Além de meu (sincero) pedido de desculpas trago também um texto encontrado em meio a documentos pertencentes à minha família. Aparentemente, tal texto é um relato extremamente detalhado de alguém que acompanhou as filmagens de um filme nunca lançado. Aproveitem.
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- Vamos lá, pessoal! Vamos começar logo esta gravação. Terei que ir ao dentista às 16h, um dente meu está doendo há mais de duas semanas! Vamos lá!
- Mas, senhor, não chegaram todos os figurantes!
- Malditos sejam os figurantes! Não há ninguém por aqui que queira participar de uma cena de julgamento? Ninguém trouxe uma sobrinha para conhecer o trabalho?
- Acho que não, senhor...
- Então que se fodam os figurantes! Vamos gravar isto e pronto!
- Ok... Ah, espere! Os figurantes chegaram.
- Ah, então tá. Todos em suas marcações, por favor.
- Ei, onde é o meu lugar mesmo? – Perguntou um dos figurantes recém-chegados.
- Maldito seja... No “X” azul, no “X” azul! – Respondeu o já impaciente diretor.
Já tem um tempo que desenvolvo minha teoria de que a melhor fase da vida é a infância. São as crianças que melhor compreendem o mundo em que vivemos, não se atendo a ideias complicadas com caráter filosófico, apenas levando tudo ao seu significado mais simples e prático.
Experimente assistir um desses filmes de animação com uma criança e depois faça o mesmo com um adulto (ou alguém de “consciência” semelhante). A diferença entre as reações será enorme. A criança rirá ao mais bobo som, a mais simples trapalhada das personagens. Ela, de forma singela, compreenderá os anseios das personagens, se animará com as vitórias e se preocupará com as derrotas. Vai querer saber o que acontecerá na próxima cena e se o Horton vai conseguir um local seguro para os habitantes de Quemlândia.
O adulto não. O adulto quer ver significado em tudo, quer que tudo acrescente algo para sua existência. Está preocupado demais em seguir ideologias, em se mostrar defensor de alguma ideia, de ser notado e respeitado por todos os seus amigos adultos. E aí ele deixa tudo sem graça, as personagens viram mero trabalho gráfico e a história, para ele, não faz sentido.
Há 6 meses amo Alana e posso dizer que, além de tudo que vivemos, uma pessoa que me ensinou (e me ensina) bastante sobre gostar e apreciar coisas pequenas é minha irmã. Não foram poucas as vezes que ela me surpreendeu com frases e ações. Faço questão de citar um destes casos.
Um dia ela iria ver um filme (“um desses filmes de animação”) e eu, estando por perto, fui questionado se iria ver também. Minha resposta foi “Não sei. Por quê?”. Ela me respondeu rápido: “É que gosto de te ouvir rindo, tua risada é engraçada. Às vezes eu nem rio do filme, rio de ti.”. O que eu podia dizer? Ainda tinha como negar o convite? Óbvio que não, já estava perplexo pensando em como esta resposta era incrível.
Tenho vontade – apesar de não conseguir precisar uma época para isso – de casar, ter filhos. Tenho vontade de compartilhar minha vida com alguém mais e de poder (re)aprender com outros. E é isto que uma criança faz: ensinar a ver o mundo de forma diferente, de uma forma que na verdade já vimos, mas esquecemos. De podermos fazer de cada momento um grande espetáculo, de sentarmos no chão e observarmos as formigas, de pintarmos quadros que ninguém entende, mas que no futuro valerão milhões. De sermos um pouco mais bobos, de não levarmos a vida tão a sério e não termos que viver relações de interesse. De sermos um pouco mais de nós.
Sei que nem tudo são maravilhas, sei que nem todas as crianças são “comportadas o suficiente” para demonstrar tais coisas, mas isso é algo relativo e que depende muito da educação e estímulos recebidos. Sei também que um dia todos deixam a fase da infância e que a grande maioria acaba “entrando na máquina e se adequando ao sistema”, mas não me contento com a ideia de esquecer como ser criança. Não me contento em querer ver o mundo através de explicações racionais, ficando cego para as constantes emoções em que uma criança se envolve. Não me contento em não rir de situações bobas e desvalorizar a magia do riso. Não me contento em não fazer cafuné, em não cantar para alguém, em não tentar inventar uma história sem sentido, em não olhar sem que meus olhos brilhem. Não me contento se não puder amar e demonstrar isso com uma frase inesperada.
Declaro então minha vontade: Não esquecer como ser criança.
Quantas vezes na vida encontramos alguém ao qual podemos confiar segredos, medos e alegrias? E quantas vezes podemos dizer que amamos tais pessoas? Poucas? Eu não sei precisar um número, mas tais pessoas trazem consigo um sentimento que acaba por se expressar das mais diferentes formas e nos mais diferentes meios. Um destes meios é a música, e quando ela lhe fala você pode ter a certeza que de alguém irá lembrar.
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Trabalho, trabalho, trabalho! Era só isso que tinha em sua vida. Levantava todos os dias tendo como única certeza o trabalho e os lucros que este lhe traria. A família, constituída por esposa e dois filhos (um garoto de 10 anos e uma garota de 8), tinha sua sustentação no trabalho daquele homem. Tudo girava em torno de seu trabalho.
Saia de manhã com pressa, mal tomava o café que sua esposa fazia com tanto cuidado e dedicação. Os filhos só tinham tempo de ouvir o barulho do carro ao deixar a casa. Cortava as ruas com aquela insanidade característica de pilotos de corrida. Adrenalina pura.
Não era uma perseguição muito performática. Estavam esperando a morte, mas não queriam apressar sua chegada. O “encontro” anterior foi suficiente. Algumas ruas mais apertadas, sinais, carros e mais carros...
Finalmente a perseguição parecia estar acabando. Entraram num bairro residencial, a mulher começou a reduzir a velocidade até parar em frente a uma casa. Casa bonita, nada espetacular, mas demonstrava conforto, aconchego. Daniel parou um pouco atrás.
A mulher desceu do carro, suas feições ainda demonstravam raiva. Daniel desceu e começou a aproximar-se ainda mais. Tinha de falar com ela. Esperou um pouco e deixou que ela chegasse à porta de sua casa. Foi aí que a abordou.