Tudo estava pronto para a viagem - viagem esta que já planejavam há meses, mas nunca tinham chances de fazê-la. Mas, era agora. Após 2 anos de casados conseguiriam passar uns dias naquela bonita casa à beira do lago que haviam encontrado por acaso num acesso de paixão pré-casamento.

Fizeram as últimas checagens e partiram para os dias mais felizes de suas vidas. A viagem de carro era um tanto longa (3h30min), mas isso não era nada comparado à paz que teriam naquele lugar afastado de tudo e de todos, refugiados num universo ínfimo e egocêntrico, como são todos os grandes amores.


O marido preferia à lareira, o aconchego da casa em noites frias; a esposa preferia à varanda e a contemplação, bem como um banho naquele oceano privado. Apesar das divergências eles concordavam em uma coisa: qualquer momento e lugar seriam bons estando um ao lado do outro.

Chegaram a casa por volta das 17h e não desperdiçaram nem um segundo: pararam o carro, desceram e correram para o lago, não demorando muito para que as roupas fossem atiradas a lugar nenhum.

O clímax, não tendo acabado, resolveu ceder um espaço para a calmaria e satisfação, mais ou menos como a sentida por uma criança ao ganhar aquele presente que há tanto desejava. Sabendo aproveitar destes sentimentos entraram na casa e foram se aquecer à lareira, o que agora já não era um desejo apenas do marido.

Passou-se algum tempo, tomaram um vinho, retiraram umas poucas coisas do carro – não havia tempo para ser desperdiçado com a desarrumação da bagagem e rearrumação da mesma –, enamoraram-se e logo após começaram um leve sono no chão quase desprotegido da casa.

Não demorou muito para que o sono fosse interrompido pelo barulho incessante ao redor da casa. Eram corridas, altas baforadas, uns e outros gemidos e aparentes esperneios. Sem falar da sensação de estarem sendo observados. Havia alguém ali fora.

“Não se preocupe”, ele disse, “Deve ser só um animal inofensivo”. Mentira. Nenhum animal agiria daquela forma, nem vigiaria tão bem, muito menos um animal inofensivo. O animal ali fora parecia ser um daqueles que tão bem conhecemos, e tanto tememos: o animal homem.

Ou talvez fosse uma espécie rara e pouco avistada (principalmente naquelas regiões), um “nós mesmos”. Seus hábitos são um tanto desconhecidos, e os conhecidos são estranhos para qualquer pessoa de bom senso. Dizem que alguns de seus movimentos gelam a espinha do ser que os avista, causando certa repugnância e admiração. Mas não nos apeemos a especulações, voltemos.

A esposa, apesar de descrente, cria em seu marido. Aquela casa era tão afastada que qualquer coisa externa a ela poderia não passar de uma simples ilusão. E ela preferia a crença na ilusão.

Mas os seres não creem por muito tempo; sempre há um empecilho, um problema, um animal inofensivo do lado de fora da casa esperando ser enxotado. Eles tinham um animal lá fora para ser enxotado, e assim devia ser, pois eles não convidaram mais ninguém para a festa. O marido, crente em sua descrença, empunhou uma lanterna para vasculhar as redondezas; a mulher empunhou elegância e medo. Medo do animal desconhecido, que fique claro.

Uns e outros passos, umas e outras voltas e nada. Nenhum vestígio do ser. O ser nem devia existir. Mas ele existia, e esperava apenas o momento certo para dar as caras. Corrijo-me: o ser não tinha cara a dar, talvez o ar de sua graça, cara não.

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Comentários (2)

On 10 de janeiro de 2010 04:52 , Débora Monte disse...

O seu jeito de escrever me fascina. :B

 
On 10 de janeiro de 2010 16:27 , Matheus G. Carlos disse...

Espero continuar fazendo isso. Obrigado.