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Voltaram em passos lentos e descompassos involuntários para a casa. Tudo estava bem, a porta já iria fechar-se, quando uma leve batida foi ouvida no vidro da janela. Era a certeza: havia algo ali. Mas não tinham vontade de descobrir. Tempos perfeitos não seriam abalados por ventos “uivantes”, uns poucos passos desconhecidos e uma leves batidas na janela.

A porta voltara a quase fechar-se, quando algo a empurrou com uma força descomunal, com a força de um ser desconhecido. O marido, que estava ao trinco, foi jogado a alguns metros, e a mulher permaneceu em sua já inerente situação.

A criatura ficou parada em frente à porta enquanto os anfitriões não lhe convidavam para a festa. Ambos olhavam o ser com a mais profunda repugnância relatada nos textos científicos. A criatura tinha semelhanças tantas que era irreal: uma criança, 8-9 anos, roupas aos trapos, pele indefinida, rosto não demarcado. Era simplesmente horrível.


A mulher saiu de seu estado de choque e passou para o de histeria. Gritou como nenhum outro ser havia gritado, ou berrado, ou gemido, ou... Perco-me. O fato é que esse berro foi o convite para nossa criança tão má acalentada. Ela correu para dentro da casa em rumo à mulher e a teria pego, caso o marido não a tivesse acertado com a garrafa de vinho.

O vinho escorreu sobre a cabeça da criança que caiu ao chão com a força de mil toneladas e a leveza de quem descansa para nunca acordar. O vinho transformava-se em sangue.

Com a frieza da noite resolveram ir ao carro pegar um saco plástico para embalar aquela criança e jogá-la em alguma cova. Não demoraram ir, nem voltar, mas o curto período foi suficiente para que a criança abandonasse suas acomodações. Não faziam idéia de onde ela estava.

Saíram mais uma vez de casa para buscar o ser e dessa vez mandá-lo para o inferno, que devia ser seu lugar de origem. Mais uma vez vasculharam e não viram nada. Não, não viram, mas não demorou muito para que ouvissem o som incessante de passos rápidos.

Numa fração de segundo a criatura já estava atrás deles, pronta para a caça. Eles sabiam que os personagens se inverteram, e mais uma vez desafiando todos os limites conhecidos correram como ninguém havia corrido.

Corriam, pulavam e desviavam, para logo depois correr mais um pouco. Muitas árvores passaram, mas a criança não cessava sua caça. O brilho de seus olhos foscos – que nem sei dizer se eram mesmo olhos – demonstrava a sua superioridade às caças, mas ela, por algum motivo não dava fim naquilo de uma vez, e preferia continuar correndo.

Correram ainda durante vários minutos - minutos estes que mais pareciam horas – sem que o ritmo da caçada diminuísse (ou aumentasse) ou acabasse por favorecer as caças. Às caças só restava o medo e o cansaço, que evitavam ao máximo em prol da sobrevivência.

Mas o corpo e a mente não suportam tudo, e por vezes acabam se desligando, gerando situações indesejadas, como um tropeço mútuo em direção a um abismo.

Os corpos rolavam ao deslizarem em suas covas. Ouso dizer que foi um espetáculo aquilo tudo. A criança parou de correr e ficou olhando do topo sem, como antes, exibir emoção. Ela também assistia ao espetáculo, talvez até já soubesse do fim que aquilo teria.

Marido e mulher terminaram um ao lado do outro, abraçados, juntos, e com tempo suficiente para aproveitar o tempo. O sangue era sangue.

Comentários (2)

On 9 de março de 2010 17:11 , Lucas disse...

Imprimi os dois textos e agora lerei no trem, de volta para a casa, depois de um longo dia de trabalho. Nada como ler bons textos. Abraços.

 
On 9 de março de 2010 18:33 , Matheus G. Carlos disse...

Agradeço o comentário. Abraços.