Já tem um tempo que desenvolvo minha teoria de que a melhor fase da vida é a infância. São as crianças que melhor compreendem o mundo em que vivemos, não se atendo a ideias complicadas com caráter filosófico, apenas levando tudo ao seu significado mais simples e prático.

Experimente assistir um desses filmes de animação com uma criança e depois faça o mesmo com um adulto (ou alguém de “consciência” semelhante). A diferença entre as reações será enorme. A criança rirá ao mais bobo som, a mais simples trapalhada das personagens. Ela, de forma singela, compreenderá os anseios das personagens, se animará com as vitórias e se preocupará com as derrotas. Vai querer saber o que acontecerá na próxima cena e se o Horton vai conseguir um local seguro para os habitantes de Quemlândia.

O adulto não. O adulto quer ver significado em tudo, quer que tudo acrescente algo para sua existência. Está preocupado demais em seguir ideologias, em se mostrar defensor de alguma ideia, de ser notado e respeitado por todos os seus amigos adultos. E aí ele deixa tudo sem graça, as personagens viram mero trabalho gráfico e a história, para ele, não faz sentido.

Há 6 meses amo Alana e posso dizer que, além de tudo que vivemos, uma pessoa que me ensinou (e me ensina) bastante sobre gostar e apreciar coisas pequenas é minha irmã. Não foram poucas as vezes que ela me surpreendeu com frases e ações. Faço questão de citar um destes casos.

Um dia ela iria ver um filme (“um desses filmes de animação”) e eu, estando por perto, fui questionado se iria ver também. Minha resposta foi “Não sei. Por quê?”. Ela me respondeu rápido: “É que gosto de te ouvir rindo, tua risada é engraçada. Às vezes eu nem rio do filme, rio de ti.”. O que eu podia dizer? Ainda tinha como negar o convite? Óbvio que não, já estava perplexo pensando em como esta resposta era incrível.

Tenho vontade – apesar de não conseguir precisar uma época para isso – de casar, ter filhos. Tenho vontade de compartilhar minha vida com alguém mais e de poder (re)aprender com outros. E é isto que uma criança faz: ensinar a ver o mundo de forma diferente, de uma forma que na verdade já vimos, mas esquecemos. De podermos fazer de cada momento um grande espetáculo, de sentarmos no chão e observarmos as formigas, de pintarmos quadros que ninguém entende, mas que no futuro valerão milhões. De sermos um pouco mais bobos, de não levarmos a vida tão a sério e não termos que viver relações de interesse. De sermos um pouco mais de nós.

Sei que nem tudo são maravilhas, sei que nem todas as crianças são “comportadas o suficiente” para demonstrar tais coisas, mas isso é algo relativo e que depende muito da educação e estímulos recebidos. Sei também que um dia todos deixam a fase da infância e que a grande maioria acaba “entrando na máquina e se adequando ao sistema”, mas não me contento com a ideia de esquecer como ser criança. Não me contento em querer ver o mundo através de explicações racionais, ficando cego para as constantes emoções em que uma criança se envolve. Não me contento em não rir de situações bobas e desvalorizar a magia do riso. Não me contento em não fazer cafuné, em não cantar para alguém, em não tentar inventar uma história sem sentido, em não olhar sem que meus olhos brilhem. Não me contento se não puder amar e demonstrar isso com uma frase inesperada.

Declaro então minha vontade: Não esquecer como ser criança.

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