Caros, sei que já faz um bom tempo que não posto no blog, portanto peço desculpas por isso. Além de meu (sincero) pedido de desculpas trago também um texto encontrado em meio a documentos pertencentes à minha família. Aparentemente, tal texto é um relato extremamente detalhado de alguém que acompanhou as filmagens de um filme nunca lançado. Aproveitem.
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- Vamos lá, pessoal! Vamos começar logo esta gravação. Terei que ir ao dentista às 16h, um dente meu está doendo há mais de duas semanas! Vamos lá!
- Mas, senhor, não chegaram todos os figurantes!
- Malditos sejam os figurantes! Não há ninguém por aqui que queira participar de uma cena de julgamento? Ninguém trouxe uma sobrinha para conhecer o trabalho?
- Acho que não, senhor...
- Então que se fodam os figurantes! Vamos gravar isto e pronto!
- Ok... Ah, espere! Os figurantes chegaram.
- Ah, então tá. Todos em suas marcações, por favor.
- Ei, onde é o meu lugar mesmo? – Perguntou um dos figurantes recém-chegados.
- Maldito seja... No “X” azul, no “X” azul! – Respondeu o já impaciente diretor.
- Ah, obrigado.
- Pronto, agora vamos lá. Não se esqueçam! Desta vez vamos filmar!
- Já podemos começar a gravar, senhor? – Perguntou um dos câmeras.
- Ah!... Gravando!
- Cena 1, take 1!
- O senhor é acusado de terrorismo, formação de quadrilha e homicídio. Como se declara?
- Culpado! Plenamente culpado! Sem nem um pouquinho de chance de escapar!
- Corta! Como assim “Culpado!”? Por acaso isso está escrito no script? Não? Então pronto! Você agora só vai dizer “Inocente”, ok?
- Ok...
- Vamos lá. Gravando!
- Cena 1, take 2!
- O senhor é acusado de terrorismo, formação de quadrilha e homicídio. Como se declara?
- Inocente.
- Vêem? Este homem, que há pouco liderava um grupo terrorista, agora se declara inocente. Não percebem, senhores? Não percebem a frieza deste ser, o modo como ele se declara após ter tentado arruinar a nossa paz pública? Após ter matado tantos de nossos compatriotas? Se não percebem ainda, chamo agora uma testemunha dos planos deste homem. Entre!
- Testemunha de acusação número um, senhorita Maria.
- Senhorita, como você conheceu este homem?
- Eu fazia parte de um grupo de jovens universitários, quando um dia ele apareceu perguntando quem estava disposto a participar de uma revolução e aí...
- A senhorita se dispôs a participar?
- Não, mas ele era tão sedutor! Ele ficou me olhando durante todo o tempo em que esteve conversando com alguns membros do grupo. Depois daquele dia ele passou a me perseguir, disse que queria conversar comigo, que tinha se encantado por mim e queria me levar para jantar.
- Que mentira! Eu só tinha ido marcar um encontro com uns amigos para que pudéssemos tocar umas músicas! Além do mais, ela me puxou pro banheiro da universidade na primeira vez que nos vimos! E já estava sem calcinha! Tá vendo? Era mais fácil eu ter dito logo que era culpado!
- Como assim, de novo? Pelo amor de Deus, onde vocês arranjaram esse cara? Não dava pra conseguir alguém que não ficasse improvisando o tempo todo?
- Mas é a verdade!
- Qual verdade? Não vê que estamos seguindo um texto? Faça-me o favor de segui-lo também. Vamos, vamos continuar!
- Cena 1, take 3!
- Então quer dizer que ele se aproximou de você? Você aceitou o convite dele?
- Sim, eu já não agüentava tanta perseguição e acabei cedendo. Se nosso encontro não fosse bom estaria tudo terminado.
- Como foi esse encontro? O que ele queria conversar com você?
- Ele começou a falar sobre a tal revolução, me contou todos os planos.
- Quais eram?
- Ele disse que o grupo dele iria fazer uma grande revolução, que todos iriam saber das suas idéias. Ah! Eles tinham até um hino! Ele cantou um pedaço para mim.
- Um hino! Como ele era?
- Ah, ele mandava o governo se calar...
- Vejam só, meus irmãos! O tal meliante já tinha até um hino que mandava o nosso governo, a nossa democracia se calar!
- Ah! No dia ele estava vestido de forma estranha. Usava uma camisa vermelha, uma boina e estava de barba grande. Ele também não parava de pedir carne ao garçom...
- Meu Deus! Um comunista! Mas a que ponto chegamos? Senhores, olhem bem para este homem! Antes ele talvez passasse despercebido em meio a nós, mas agora já sabemos: Ele é um maldito comunista comedor de criancinhas!
- Como assim? Eu só estava com fome! Eu nunca iria comer uma criança!
- Senhor, ele está improvisando novamente... – Sussurrou a assistente para o diretor.
- Deixa, deixa, dessa vez ficou bom. – Sussurrou o diretor em resposta ao sussurro da assistente.
- Como é dissimulado... Caro júri, ainda acha que há algo a ser discutido? Ainda há algo que não tenha sido revelado?
- Não... – Sussurrou o júri.
- Como assim “Não...”? Eu tenho testemunhas a meu favor também! Cadê meu advogado? Alguém pode procurar meu advogado?
- Senhor, desista, até seu advogado já tratou de fugir. Todos sabem, você é culpado.
- Não, não... Eu quero chamar uma testemunha, Vossa Excelência!
- Ah, tá. Pedido concedido. – Disse o juiz que assistia tudo aquilo como quem assiste a roupa girando dentro da máquina de lavar.
- Ha ha! Chamem a minha mãe!
- Apresentamos a senhora Laura.
- Senhora Laura, o que tem a dizer sobre o seu filho?
- Ai, senhor advogado, esse menino é um marginal. Só me dá desgosto! Desde que ele passou a andar com aquele pessoal cabeludo que toca violão ele ficou desse jeito. Que vergonha, meu Deus...
- Cacete, mãe! Ninguém aqui tá do meu lado mesmo?
- Senhor, ele continua a improvisar... – Sussurrou mais uma vez a assistente.
- Tem nada não, agora eu tô gostando. Tá dando emoção! – Respondeu o diretor, definitivamente emocionado e quase não mais sussurrando, à sua assistente.
- Amigos, agora não há nada mais a ser dito, creio eu. Para mim este homem é culpado, agora só resta a vocês decidirem.
- Culpado é o caramba! Esse julgamento não pode acabar assim! Eu sou inocente!
- Senhor, nessa parte o réu deveria se arrepender e finalmente declarar ser culpado, lembra? – De novo a assistente...
- É, tem razão, chega de improviso... Corta!
- O que foi agora, diretor? Do que foi que eu me esqueci do script?
- É... Olha, tá perfeito, mas só que agora você deveria se arrepender e se declarar culpado, que nem você fez no começo da gravação, lembra?
- Mas agora eu quero me declarar inocente!
- Mas isso era no começo do texto!
- Pois trate de mudar o texto! Eu sou inocente!
- Senhor, já são 15h40min. Você tem de ir ao dentista, lembra? – Disse a assistente.
- É, é verdade. Bom, pessoal, por hoje chega. Amanhã nós refaremos toda a cena. E você, rapazinho, trate de aprender o final do texto!
- Amanhã nós vamos fazer isso de novo? Desse jeito eu digo logo que sou culpado!
- Não, agora é tarde! Trate de dizer que é culpado amanhã!
- Mas, mas...
- Sabe, – começou a dizer o diretor para sua assistente enquanto se afastava do set – apesar de tudo acho que nós já temos um clássico nas mãos. Já estou até vendo nas colunas de revistas: “O filme mais realista sobre um julgamento!”.
- Acho que você tem razão, senhor, acho que você tem razão.
- Aliás, trate de chamar aquele garoto que faz o réu para o meu próximo filme. Ele é tão vívido!
- Senhor, acho que este vai ser o último filme da carreira dele.
- É mesmo? Que pena, ele tinha um futuro muito promissor.
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- Vamos lá, pessoal! Vamos começar logo esta gravação. Terei que ir ao dentista às 16h, um dente meu está doendo há mais de duas semanas! Vamos lá!
- Mas, senhor, não chegaram todos os figurantes!
- Malditos sejam os figurantes! Não há ninguém por aqui que queira participar de uma cena de julgamento? Ninguém trouxe uma sobrinha para conhecer o trabalho?
- Acho que não, senhor...
- Então que se fodam os figurantes! Vamos gravar isto e pronto!
- Ok... Ah, espere! Os figurantes chegaram.
- Ah, então tá. Todos em suas marcações, por favor.
- Ei, onde é o meu lugar mesmo? – Perguntou um dos figurantes recém-chegados.
- Maldito seja... No “X” azul, no “X” azul! – Respondeu o já impaciente diretor.
- Ah, obrigado.
- Pronto, agora vamos lá. Não se esqueçam! Desta vez vamos filmar!
- Já podemos começar a gravar, senhor? – Perguntou um dos câmeras.
- Ah!... Gravando!
- Cena 1, take 1!
- O senhor é acusado de terrorismo, formação de quadrilha e homicídio. Como se declara?
- Culpado! Plenamente culpado! Sem nem um pouquinho de chance de escapar!
- Corta! Como assim “Culpado!”? Por acaso isso está escrito no script? Não? Então pronto! Você agora só vai dizer “Inocente”, ok?
- Ok...
- Vamos lá. Gravando!
- Cena 1, take 2!
- O senhor é acusado de terrorismo, formação de quadrilha e homicídio. Como se declara?
- Inocente.
- Vêem? Este homem, que há pouco liderava um grupo terrorista, agora se declara inocente. Não percebem, senhores? Não percebem a frieza deste ser, o modo como ele se declara após ter tentado arruinar a nossa paz pública? Após ter matado tantos de nossos compatriotas? Se não percebem ainda, chamo agora uma testemunha dos planos deste homem. Entre!
- Testemunha de acusação número um, senhorita Maria.
- Senhorita, como você conheceu este homem?
- Eu fazia parte de um grupo de jovens universitários, quando um dia ele apareceu perguntando quem estava disposto a participar de uma revolução e aí...
- A senhorita se dispôs a participar?
- Não, mas ele era tão sedutor! Ele ficou me olhando durante todo o tempo em que esteve conversando com alguns membros do grupo. Depois daquele dia ele passou a me perseguir, disse que queria conversar comigo, que tinha se encantado por mim e queria me levar para jantar.
- Que mentira! Eu só tinha ido marcar um encontro com uns amigos para que pudéssemos tocar umas músicas! Além do mais, ela me puxou pro banheiro da universidade na primeira vez que nos vimos! E já estava sem calcinha! Tá vendo? Era mais fácil eu ter dito logo que era culpado!
- Como assim, de novo? Pelo amor de Deus, onde vocês arranjaram esse cara? Não dava pra conseguir alguém que não ficasse improvisando o tempo todo?
- Mas é a verdade!
- Qual verdade? Não vê que estamos seguindo um texto? Faça-me o favor de segui-lo também. Vamos, vamos continuar!
- Cena 1, take 3!
- Então quer dizer que ele se aproximou de você? Você aceitou o convite dele?
- Sim, eu já não agüentava tanta perseguição e acabei cedendo. Se nosso encontro não fosse bom estaria tudo terminado.
- Como foi esse encontro? O que ele queria conversar com você?
- Ele começou a falar sobre a tal revolução, me contou todos os planos.
- Quais eram?
- Ele disse que o grupo dele iria fazer uma grande revolução, que todos iriam saber das suas idéias. Ah! Eles tinham até um hino! Ele cantou um pedaço para mim.
- Um hino! Como ele era?
- Ah, ele mandava o governo se calar...
- Vejam só, meus irmãos! O tal meliante já tinha até um hino que mandava o nosso governo, a nossa democracia se calar!
- Ah! No dia ele estava vestido de forma estranha. Usava uma camisa vermelha, uma boina e estava de barba grande. Ele também não parava de pedir carne ao garçom...
- Meu Deus! Um comunista! Mas a que ponto chegamos? Senhores, olhem bem para este homem! Antes ele talvez passasse despercebido em meio a nós, mas agora já sabemos: Ele é um maldito comunista comedor de criancinhas!
- Como assim? Eu só estava com fome! Eu nunca iria comer uma criança!
- Senhor, ele está improvisando novamente... – Sussurrou a assistente para o diretor.
- Deixa, deixa, dessa vez ficou bom. – Sussurrou o diretor em resposta ao sussurro da assistente.
- Como é dissimulado... Caro júri, ainda acha que há algo a ser discutido? Ainda há algo que não tenha sido revelado?
- Não... – Sussurrou o júri.
- Como assim “Não...”? Eu tenho testemunhas a meu favor também! Cadê meu advogado? Alguém pode procurar meu advogado?
- Senhor, desista, até seu advogado já tratou de fugir. Todos sabem, você é culpado.
- Não, não... Eu quero chamar uma testemunha, Vossa Excelência!
- Ah, tá. Pedido concedido. – Disse o juiz que assistia tudo aquilo como quem assiste a roupa girando dentro da máquina de lavar.
- Ha ha! Chamem a minha mãe!
- Apresentamos a senhora Laura.
- Senhora Laura, o que tem a dizer sobre o seu filho?
- Ai, senhor advogado, esse menino é um marginal. Só me dá desgosto! Desde que ele passou a andar com aquele pessoal cabeludo que toca violão ele ficou desse jeito. Que vergonha, meu Deus...
- Cacete, mãe! Ninguém aqui tá do meu lado mesmo?
- Senhor, ele continua a improvisar... – Sussurrou mais uma vez a assistente.
- Tem nada não, agora eu tô gostando. Tá dando emoção! – Respondeu o diretor, definitivamente emocionado e quase não mais sussurrando, à sua assistente.
- Amigos, agora não há nada mais a ser dito, creio eu. Para mim este homem é culpado, agora só resta a vocês decidirem.
- Culpado é o caramba! Esse julgamento não pode acabar assim! Eu sou inocente!
- Senhor, nessa parte o réu deveria se arrepender e finalmente declarar ser culpado, lembra? – De novo a assistente...
- É, tem razão, chega de improviso... Corta!
- O que foi agora, diretor? Do que foi que eu me esqueci do script?
- É... Olha, tá perfeito, mas só que agora você deveria se arrepender e se declarar culpado, que nem você fez no começo da gravação, lembra?
- Mas agora eu quero me declarar inocente!
- Mas isso era no começo do texto!
- Pois trate de mudar o texto! Eu sou inocente!
- Senhor, já são 15h40min. Você tem de ir ao dentista, lembra? – Disse a assistente.
- É, é verdade. Bom, pessoal, por hoje chega. Amanhã nós refaremos toda a cena. E você, rapazinho, trate de aprender o final do texto!
- Amanhã nós vamos fazer isso de novo? Desse jeito eu digo logo que sou culpado!
- Não, agora é tarde! Trate de dizer que é culpado amanhã!
- Mas, mas...
- Sabe, – começou a dizer o diretor para sua assistente enquanto se afastava do set – apesar de tudo acho que nós já temos um clássico nas mãos. Já estou até vendo nas colunas de revistas: “O filme mais realista sobre um julgamento!”.
- Acho que você tem razão, senhor, acho que você tem razão.
- Aliás, trate de chamar aquele garoto que faz o réu para o meu próximo filme. Ele é tão vívido!
- Senhor, acho que este vai ser o último filme da carreira dele.
- É mesmo? Que pena, ele tinha um futuro muito promissor.
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Matheus G. Carlos
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